a seca me expulsou da bahia
e me arrastou pra são paulo
apareceu os home de terno
dizendo que a terra tinha dono
o dinheiro me expulsou da favela
e me arrastou pro centro
apareceu a prefeitura
e disse que o prédio
[abandonado, largado e caindo aos pedaços]
tinha dono
a higienização do centro me expulsou do centro
e me arrastou pro meio da rua
apareceu os home de farda
dizendo que a rua tinha dono
quebraram o que sobrou
do que havia sobrado
desde a última expulsão
são paulo comeu meu nome
minha identidade
meu retrato
meu endereço
minha humanidade
a prefeitura comeu minha saúde
minha dignidade
meus direitos
a polícia veio
e comeu todos os papéis
onde eu escrevera meu nome
minha saúde
meu medo da morte
a violência oficial roeu minha infância
o menino esquivo, sempre nos cantos, que rabiscava livros , mordia lápis
comeu o Estado
minha cidadania
o capitalismo veio e comeu todos os papéis onde eu irrefletidamente eu tornara a escrever o meu nome
comeu minha altura
meu peso
a cor dos meus olhos
e dos meus cabelos
os home de terno manda a prefeitura mandar os home de farda
pra dizer pra gente que a cidade tem dono
e que o dono tem dinheiro
e que dinheiro é poder
o cacetete é de borracha
e serve pra apagar gente pobre
da via
da vista
da vida




Fantástico